Qual certificação Scrum escolher: as três responsabilidades e as duas trilhas
O original deste texto é de 2020 e envelheceu na terminologia. O Guia do Scrum mudou meses depois de eu publicar.
· 9 min de leitura
Escolher uma certificação Scrum envolve duas perguntas, e a maioria das pessoas só faz a primeira. A primeira é qual responsabilidade combina com você, entre Product Owner, Scrum Master e Developers. A segunda, que costuma pesar mais no bolso, é qual emissor: Scrum.org cobra uma vez e a credencial não vence, enquanto Scrum Alliance exige curso e renovação a cada dois anos.
Escrevi a primeira versão deste texto em 2020, e ela envelheceu de um jeito específico. Poucos meses depois de publicar, o Guia do Scrum mudou a terminologia que eu tinha usado.
Vou começar por essa correção, porque ela ainda aparece em material que circula hoje.
O Scrum não tem papéis, e isso mudou em 2020
Se você aprendeu Scrum antes de novembro de 2020, aprendeu que existem três papéis: Scrum Master, Product Owner e Development Team.
Duas coisas mudaram ali, e nenhuma é cosmética.
A palavra papel saiu do guia. No lugar entraram responsabilidades, ou accountabilities no original. Não é que papel tenha sido renomeado: a categoria deixou de existir. Papel descreve uma função que alguém desempenha. Responsabilidade descreve algo por que a pessoa responde. A segunda é mais difícil de tratar como crachá.
Development Team virou Developers. Aqui a mudança é de estrutura. Antes existia um time dentro do time: o Scrum Team continha o Development Team, mais o PO e o Scrum Master de fora dele. Hoje existe um Scrum Team, e Developers são as pessoas dentro dele comprometidas em criar cada aspecto de um incremento utilizável.
Parece detalhe. Não é. A separação antiga alimentava exatamente a dinâmica que o Scrum tenta evitar, com o PO trazendo pedido de um lado e o time executando do outro.
O guia de 2020 também trocou self-organizing por self-managing, ou seja o time decide internamente quem faz o quê, quando e como. E criou o Product Goal, além de dar um compromisso a cada artefato: Product Backlog com Product Goal, Sprint Backlog com Sprint Goal, e Increment com Definition of Done.
Uma observação para quem for pesquisar: não existe versão mais nova do guia. A oficial continua sendo a de novembro de 2020. O que existe é o Scrum Guide Expansion Pack, publicado em junho de 2025 por Jeff Sutherland, Ralph Jocham e John Coleman, que é material complementar, com temas como inteligência artificial e resultado, e não substitui o guia.
Primeira pergunta: por qual responsabilidade você responde melhor
Aqui o critério não é o que dá mais status. É o que você já faz bem e o que você gostaria de fazer.
Developers
São as pessoas que constroem o incremento. O time é autogerenciável e multifuncional, o que significa duas coisas concretas: decide internamente como o trabalho é distribuído, e reúne as habilidades necessárias para transformar um item de backlog em algo que funciona de verdade.
Multifuncional não quer dizer que todo mundo faz tudo. Quer dizer que o time, junto, não precisa terceirizar uma etapa essencial para conseguir entregar.
É a escolha natural de quem gosta de resolver problema técnico: banco de dados, código, teste, arquitetura, integração.
Product Owner
Responde pelo valor do produto. Na prática: manter o Product Backlog, priorizar, decidir o que entra e principalmente o que não entra, e trabalhar com as áreas interessadas para entender o que o produto precisa resolver.
A parte que material de certificação subestima é que o PO precisa de mandato. Product Owner sem autonomia para dizer não vira gerente de pedido, e nenhum treinamento conserta isso, porque é problema de estrutura organizacional.
É a escolha de quem conhece o negócio, transita bem entre áreas e prefere decidir a construir.
Scrum Master
É facilitador, e vale repetir a frase que eu já usava em 2020, porque ela continua sendo a mais útil: cuida do processo, não das pessoas.
O trabalho concreto é remover impedimento. Às vezes é destravar um ambiente com a equipe de infraestrutura. Às vezes é ajudar o PO a conversar com quem constrói quando o requisito é técnico demais. Às vezes é proteger o time de interrupção que não deveria existir.
Sempre chamei esse perfil de coringa, e mantenho: é o profissional que dá para colocar em quase qualquer frente e ele agrega. Mas hoje eu acrescentaria uma ressalva. É também a certificação mais banalizada das três, justamente por ser a porta de entrada mais comum. Ter a credencial diz pouco. Saber conduzir uma sala onde duas áreas discordam diz tudo.
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Segunda pergunta: qual emissor, e essa decisão é financeira
Essa parte eu não abordei em 2020, e é a que mais afeta a decisão de quem está pagando do próprio bolso.
Scrum.org não exige curso. Você compra a prova, estuda por conta e faz. A trilha vai de PSM I a PSM III no Scrum Master, PSPO I a III no Product Owner, e PSD I para Developers. O ponto decisivo: a credencial não vence e não tem taxa de renovação nem exigência de educação continuada.
Scrum Alliance exige curso obrigatório de 16 horas com instrutor credenciado, mais avaliação. As certificações são CSM, CSPO e CSD, com níveis avançados acima. A credencial vence em dois anos, e renovar exige unidades de educação continuada mais uma taxa por ciclo.
Não vou publicar valores porque preço muda e este texto é para durar. O que não muda é a estrutura do custo: uma trilha tem custo único e a outra tem custo de entrada maior mais custo recorrente a cada dois anos. Confira o valor atual no site do emissor antes de decidir.
Na minha leitura, a escolha é assim. Se você já trabalha com times ágeis e quer validar vocabulário, a prova aberta é mais eficiente. Se você está entrando na área agora e aprende melhor com condução, o curso obrigatório vira vantagem, não custo. E se sua empresa paga, vale confirmar quem assume a renovação daqui a dois anos, porque essa conta costuma ficar esquecida.
O que certificação faz, e o que ela não faz
Todas dão a mesma base: os eventos, os artefatos, os compromissos e as responsabilidades. Cada uma enfatiza um recorte.
O que a certificação faz bem é criar vocabulário comum. Não é pouco. Boa parte do atrito em adoção de ágil é gente usando a mesma palavra para coisas diferentes.
O que ela não faz é demonstrar experiência. Nenhum exame mostra que alguém já segurou um PI Planning que estava desandando, ou negociou escopo com um cliente irritado.
Do lado de quem contrata, e é dessa cadeira que eu falo hoje, a certificação me diz que a pessoa investiu tempo no assunto e fala a mesma língua. A conversa começa aí. O que decide é o que ela conta sobre a última vez que a coisa deu errado.
Se você está começando agora, meu conselho é escolher pela responsabilidade que você quer exercer, e não pela que parece mais valorizada no mercado. A segunda muda de moda. A primeira é onde você vai passar seus dias.
E se você já está em um time ágil, talvez a pergunta mais útil não seja qual certificação tirar, mas qual das três responsabilidades hoje está sem dono claro na sua operação.
Perguntas
Dúvidas frequentes
Quantos papéis existem no Scrum?
Nenhum, e a pergunta virou incorreta em 2020. O Guia do Scrum daquele ano deixou de usar a palavra papel e passou a falar em responsabilidades, ou accountabilities. São três: Product Owner, Scrum Master e Developers. Falar em três papéis do Scrum hoje sinaliza material anterior a 2020.
Qual a diferença entre Scrum.org e Scrum Alliance?
Scrum.org não exige curso, você compra a prova e faz, e a credencial não vence nem tem taxa de renovação. Scrum Alliance exige curso de 16 horas com instrutor credenciado e a certificação vence em dois anos, com renovação que pede unidades de educação continuada mais taxa. A escolha é entre custo único com autonomia e custo recorrente com treinamento formal.
Existe certificação para desenvolvedor no Scrum?
Existe nas duas trilhas. Na Scrum.org é o PSD, e na Scrum Alliance é o CSD, com níveis avançados acima. É a menos procurada das três, o que na prática significa menos concorrência de currículo para quem realmente trabalha construindo o produto.
Certificação Scrum vale a pena?
Vale como base de vocabulário comum e como filtro em processo seletivo, e não vale como prova de experiência. Nenhum exame demonstra que alguém já conduziu um time em situação real. Quem contrata sabe disso, então a certificação abre a conversa e a experiência sustenta ela.
O Guia do Scrum tem versão mais nova que 2020?
Não. A versão oficial vigente continua sendo a de novembro de 2020. Em junho de 2025 foi publicado o Scrum Guide Expansion Pack, por Jeff Sutherland, Ralph Jocham e John Coleman, que é material complementar e não substitui o guia.
Sobre o autor
Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.