Desenvolvimento em cadência no SAFe: os eventos que sincronizam o trem

Sem ritmo comum, cada time tem o próprio calendário, e coordenar passa a exigir reunião extra.

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Cadência, no SAFe, é o ritmo fixo e compartilhado em que todos os times de um Agile Release Train operam. Iterações de duas semanas dentro de um Planning Interval de 8 a 12 semanas, com os mesmos eventos nas mesmas datas para todos.

E o motivo dela existir é mais simples do que a quantidade de eventos sugere: cadência é o que permite planejar dependência. Se cada time tem o próprio calendário, combinar qualquer coisa entre dois times passa a exigir negociação de agenda. Com ritmo comum, a combinação já tem onde acontecer.

O jeito mais direto de resumir o risco que ela reduz: a pior coisa que existe é descobrir, no fim do fluxo, que se gastou esforço na direção errada.

Onde o Kanban entra

Antes dos eventos, vale registrar o instrumento. Para visualizar fluxo, status e gargalo no nível do trem, o SAFe usa o ART Kanban.

Uma nota de nomenclatura, porque afeta qualquer material anterior a 2023: isso se chamava Program Kanban até o SAFe 5. O 6.0 trocou "Program" por "ART" em todo o framework. E o próprio 6.0 foi além: todos os backlogs do SAFe passaram a ser visualizados em um sistema Kanban, com o estado inicial renomeado para "Pronto" justamente para reduzir a confusão entre o estado do Kanban e o backlog em si.

Três camadas de evento

A cadência de um Planning Interval Um Planning Interval tem tipicamente cinco iterações de duas semanas. O PI Planning abre. Cada iteração tem os eventos do time: planejamento, diária, revisão, refinamento e retrospectiva. Ao longo do intervalo correm os eventos do ART: Scrum of Scrums e PO Sync, semanais. A última iteração é a de inovação e planejamento, que serve de folga, e o Inspect and Adapt fecha o ciclo alimentando o próximo PI Planning. PI Planning 2 dias CINCO ITERAÇÕES DE DUAS SEMANAS Iteração 1 entrega incremento Iteração 2 entrega incremento Iteração 3 entrega incremento Iteração 4 entrega incremento Iteração 5 inovação e planejamento Inspect and Adapt o que melhorar alimenta o próximo planejamento DENTRO DE CADA ITERAÇÃO, O TIME Planejamento Diária Revisão Refinamento Retrospectiva AO LONGO DO INTERVALO, O TREM Scrum of Scrums Scrum Masters, semanal PO Sync Product Owners, semanal Preparar o PI Planning opcional, antes do próximo Cadência é o que permite planejar dependência. Sem ritmo comum, cada time tem o seu calendário.
A cadência não existe para controlar. Existe para que dezenas de times possam combinar algo entre si sem reunião extra.

Os eventos do SAFe formam um sistema de ciclo fechado, e é mais fácil entendê-los separados por camada do que numa lista só.

Os eventos do time

Dentro de cada iteração, e para quem conhece Scrum não há surpresa nenhuma aqui:

  • Planejamento da iteração, onde o time planeja as histórias
  • Diária, focada em impedimento e no que mudou, não em status
  • Revisão da iteração, onde se demonstra o que foi feito
  • Refinamento do backlog, que é atividade contínua e não evento
  • Retrospectiva, sobre o processo

Os eventos do ART

Esses são os que existem por causa da escala, e são o que diferencia o SAFe de vários times fazendo Scrum em paralelo.

PI Planning. Os dois dias que abrem o intervalo, e que têm artigo próprio.

Scrum of Scrums. Reunião entre os Scrum Masters, conduzida pelo Release Train Engineer, semanal ou mais frequente, de 30 a 60 minutos. Trata impedimento, dependência entre times e verifica se todos entenderam o mesmo.

PO Sync. Reunião entre os Product Owners, com Product Management, facilitada pelo PM ou pelo RTE, na mesma frequência. Trata progresso, escopo e prioridade.

Vale marcar a diferença entre as duas, porque elas se confundem: o Scrum of Scrums cuida do como, o PO Sync cuida do quê. Uma resolve impedimento de execução, a outra resolve dúvida de escopo. Juntá-las produz uma reunião longa em que nenhuma das duas coisas é decidida.

Preparar o PI Planning. Não é obrigatório, e é boa prática. Backlog não refinado transforma dois dias de planejamento em dois dias de refinamento.

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Inspect and Adapt: o evento que fecha o ciclo

Este é o mecanismo de melhoria do intervalo, e reúne todos os envolvidos junto com os times ágeis. A saída é uma lista de itens de melhoria que entra no próximo PI Planning, e é isso que fecha o ciclo: a melhoria não fica numa ata, ela disputa capacidade como qualquer outro item.

São três partes.

1. Demonstração integrada do sistema

O PI System Demo apresenta o sistema funcionando para um público amplo: cliente, patrocinador, representante do negócio. Conduzido por Product Management, dura tipicamente uma hora.

A diferença em relação à demonstração de cada iteração é o que importa: aqui se mostram as funcionalidades do trem funcionando integradas. É a única ocasião em que se vê o resultado do conjunto, e não a soma de partes que cada time entregou.

Por ser mais formal, exige preparo antecipado e precisa ficar em nível alto o suficiente para que quem não é técnico entenda e reaja. É também onde os Business Owners pontuam o valor real de negócio de cada funcionalidade apresentada, o que permite comparar com o valor que eles haviam estimado no PI Planning.

2. Medição quantitativa e qualitativa

As métricas acordadas são analisadas, e depois discutidas em conjunto para identificar tendência. O RTE e o Solution Train Engineer coletam e organizam os dados.

A métrica principal aqui é a previsibilidade do programa: o valor de negócio planejado contra o realizado, por time e acumulado. Não é medida de produtividade, é medida de confiabilidade do plano.

3. Oficina de retrospectiva e resolução de problemas

Os times fazem uma retrospectiva curta, de cerca de 30 minutos, com um objetivo específico: escolher quais questões merecem ir para a oficina. O facilitador ajuda a selecionar os temas e a identificar quem pode contribuir na resolução.

Depois vem a oficina de resolução de problemas, facilitada pelo RTE, com tempo fechado de cerca de duas horas, para atacar problema sistêmico. O objetivo é chegar à causa raiz, e não à primeira explicação plausível.

O que faz essa parte funcionar é ela ser separada da retrospectiva. Retrospectiva de time resolve o que o time controla. Problema sistêmico, por definição, nenhum time resolve sozinho, e é por isso que ele precisa de um espaço com as pessoas certas na sala.

A iteração de inovação e planejamento

Esta é, na minha visão, a parte mais inteligente da cadência do SAFe e a primeira a ser cortada quando a organização está com pressa.

A iteração IP é a última do intervalo, de duas semanas, e serve para quatro coisas:

  • Inovar, com espaço para hackathon, experimento e melhoria de infraestrutura
  • Planejar o próximo intervalo
  • Recuperar atraso
  • Absorver o imprevisto, funcionando como margem de segurança

O ponto que costuma ser mal entendido: isso é folga planejada, não sobra de capacidade. Ela não é preenchida com trabalho de entrega porque a função dela é justamente estar disponível.

E o SAFe é explícito sobre o que acontece quando ela não existe. Vale a lista, porque cada item é reconhecível:

  • A previsibilidade cai, porque não há onde absorver variação
  • A inovação desaparece sob a tirania do urgente
  • A dívida técnica cresce sem controle
  • As pessoas se esgotam
  • Não há tempo para os times planejarem, demonstrarem e melhorarem juntos

Repare que os cinco são consequências da mesma causa: um sistema sem folga não tem onde acomodar variação, e variação sempre existe. É o mesmo argumento do Kanban sobre limitar trabalho em progresso, aplicado ao calendário em vez da fila.

O que decide se a cadência funciona

A cadência é a parte do SAFe que parece mais burocrática de fora e é a que sustenta o resto. Sem ela, não existe PI Planning, porque não há ritmo comum para planejar; e não existe Inspect and Adapt, porque não há ponto de fechamento.

O que quebra na prática costuma ser um de dois lugares. O primeiro é a iteração IP virar capacidade de entrega, o que troca previsibilidade por volume no curto prazo e cobra a conta no intervalo seguinte. O segundo é o Inspect and Adapt virar apresentação: quando a oficina de resolução de problemas é cortada por falta de tempo, o evento produz demonstração e métrica, mas nenhuma mudança.

Na sua organização, o que acontece com o item de melhoria que sai de uma retrospectiva: ele disputa capacidade com o resto do backlog, ou ele fica numa lista que ninguém revisita?

Perguntas

Dúvidas frequentes

O que é cadência no SAFe?

É o ritmo fixo e compartilhado em que todos os times de um Agile Release Train operam: iterações de duas semanas dentro de um Planning Interval de 8 a 12 semanas. Sem ritmo comum, planejar dependência entre times exige negociação de agenda a cada vez.

O que é a iteração IP no SAFe?

É a iteração de inovação e planejamento, a última do intervalo. Serve para inovar, recuperar atraso, planejar o próximo ciclo e absorver imprevisto. É folga planejada, e não sobra de capacidade.

O que é Inspect and Adapt?

É o evento que fecha cada Planning Interval, em três partes: demonstração integrada do sistema, análise das métricas quantitativas e qualitativas, e uma oficina de retrospectiva e resolução de problemas. A saída alimenta o próximo PI Planning.

Qual a diferença entre Scrum of Scrums e PO Sync?

Scrum of Scrums reúne os Scrum Masters, conduzido pelo Release Train Engineer, e trata impedimento e dependência de execução. PO Sync reúne os Product Owners com Product Management, e trata escopo, progresso e prioridade. Um cuida do como, o outro do quê.

O que acontece se não existir a iteração IP?

Quatro coisas, e todas aparecem: previsibilidade cai porque não há folga para o imprevisto, a inovação some sob a tirania do urgente, a dívida técnica cresce sem controle e as pessoas se esgotam. Sem folga, o sistema não tem onde absorver variação.

Sobre o autor

Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.