Quais são os documentos de um projeto de tecnologia, e para que serve cada um

Uso a declaração de escopo como visão macro, e vou detalhando com a equipe enquanto o projeto avança.

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Seis documentos atravessam um projeto de tecnologia conduzido no modelo tradicional: declaração de escopo, declaração funcional, documentação técnica, caderno de testes, manual do usuário e documento operacional.

Nem todo projeto precisa dos seis. Alguns podem não existir, e outros podem ser absorvidos: a declaração funcional, por exemplo, pode estar contida na declaração de escopo quando o escopo já está bem detalhado.

O que não pode é a informação do projeto se perder no caminho.

Os documentos de um projeto de tecnologia, na ordem em que aparecem A declaração de escopo abre o projeto e é aprovada por quem pediu. A declaração funcional detalha os requisitos. A documentação técnica registra as decisões de construção. O caderno de testes registra a validação e o aceite. O manual do usuário ensina quem vai usar. O documento operacional passa o sistema para quem vai sustentar, e é aprovado pela própria equipe de sustentação. NA ORDEM EM QUE APARECEM 1 Declaração de escopo o que será feito, e o que não será ESCREVE quem levantou a demanda APROVA quem pediu 2 Declaração funcional o detalhe do que o escopo definiu por cima ESCREVE analista funcional APROVA quem pediu 3 Documentação técnica como foi construído, e por que assim ESCREVE equipe técnica APROVA arquitetura ou liderança técnica 4 Caderno de testes o que foi verificado, e por quem ESCREVE quem testa APROVA quem valida e assume o aceite 5 Manual do usuário como usar, por tarefa e não por tela ESCREVE quem conhece o uso APROVA um usuário que nunca viu o sistema 6 Documento operacional o que a operação precisa para sustentar ESCREVE equipe técnica APROVA a equipe de sustentação A coluna de quem aprova é a que costuma faltar, e é ela que decide se o documento vale algo depois.
Nem todo projeto precisa dos seis. A declaração funcional pode caber dentro do escopo, e o manual pode virar tutorial dentro do próprio sistema. O que não pode é a informação se perder no caminho.

Antes de entrar em cada um

Esses são os documentos que eu uso conduzindo projeto tradicional. É possível que existam outros que eu deixei de mencionar, e o conjunto muda conforme a organização.

Vale dizer uma coisa que costuma gerar confusão: documentar não é o oposto de ser ágil. O Manifesto Ágil prefere software funcionando a documentação abrangente, e isso não é o mesmo que ser contra documentação. A pergunta certa não é se documentar, é qual documentação é fundamental e quem vai usá-la.

A coluna que decide isso é a de quem aprova. Documento que ninguém aprova é documento que ninguém defende depois.

Declaração de escopo

Quando o projeto começa, é o primeiro documento a existir. Nele está tudo que será desenvolvido ao longo do projeto.

Normalmente é criado por quem levantou as informações com a equipe ou com o usuário que solicitou a demanda. Não precisa ser um analista de negócios: se quem pediu tem clareza técnica, pode escrever.

Ele serve para auxiliar a condução do projeto, porque expõe as necessidades do cliente, e é imprescindível para a validação no fim.

Como eu uso na prática, e essa é a parte que eu faria diferente de um manual: uso a declaração de escopo como o documento macro do projeto, onde está o objetivo, as funcionalidades e os requisitos gerais. O detalhe fino vai sendo acrescentado depois, com a ajuda da equipe funcional e de desenvolvimento.

Faço isso para o projeto poder avançar enquanto eu detalho as solicitações menos prioritárias. Esperar o escopo perfeito antes de começar é como esperar o mapa completo antes de sair de casa.

Quando o escopo é totalmente conhecido, esse documento fica bem especificado e às vezes dispensa documento de apoio. O que costuma acontecer, na verdade, é ele não ficar completamente detalhado: por inabilidade técnica de quem elaborou, por não conhecer o projeto inteiro, ou pelas mudanças habituais de qualquer projeto.

A seção que eu passei a considerar a mais importante, e que faltava nos meus próprios modelos: o que não está no escopo. Escopo se define excluindo. A lista do que não será feito é o que evita a conversa de "mas eu achei que estava incluso" no meio da execução.

Declaração funcional

Pode ser entendida como o documento de funcionalidades. Aqui os requisitos são especificados em detalhe: requisitos funcionais, não funcionais, regras de negócio.

Em alguns projetos ela não é desenvolvida, porque é um documento parecido com a declaração de escopo. Fica a critério da equipe. Normalmente ela é criada quando é preciso detalhar ainda mais o que a declaração de escopo definiu por cima.

Pode ter tópicos variados: fluxos, processos, casos de uso. O objetivo é que ela resolva qualquer dúvida da equipe de desenvolvimento.

Uma coisa que eu acrescentaria a qualquer declaração funcional: dar identificador a cada requisito. Sem ID, o caderno de testes, o commit e a discussão de três meses depois não conseguem apontar para a mesma coisa. É por isso que "o requisito mudou" costuma virar discussão sem prova.

E a seção que separa documento honesto de documento que parece completo: as pendências e dúvidas abertas, com dono e prazo. Pendência registrada é risco gerenciado. Pendência não registrada é surpresa.

Documentação técnica

Desenvolvida pela equipe técnica, aprofunda a nível de desenvolvimento o que os documentos funcionais e de escopo definiram.

O intuito é evidenciar o que precisa ser feito tecnicamente. Costuma conter diagrama de classes, diagrama de banco de dados, linguagens, arquitetura adotada, configuração de servidores de aplicação e de banco.

Esse é um dos documentos mais importantes do projeto, e existe um teste simples para saber se ele está bom. Não é se descreve tudo. É se, com ele em mãos, qualquer equipe capaz consegue dar prosseguimento ao projeto, mesmo que ninguém do time original esteja mais lá.

Ele também serve de base para o documento operacional.

Duas seções que eu acrescentei aos meus modelos e que mudam o valor dele a longo prazo.

Decisões de arquitetura, com as alternativas que foram descartadas e o motivo da escolha. Sem isso, a próxima equipe desfaz por ignorância uma decisão que existia por um bom motivo.

Dívida técnica conhecida. O que está errado e você sabe. Registrar não é confissão, é transferência de contexto: a próxima pessoa vai descobrir de qualquer forma, e descobrir sozinha custa semanas.

Um cuidado que eu aprendi da forma difícil: esse documento circula por e-mail, fica em pasta compartilhada e é anexado em chamado. Senha, chave e token não entram nele. E vale pensar duas vezes antes de copiar IP interno, hostname e porta para dentro dele: se existe inventário oficial, melhor referenciar, porque documento copiado envelhece e vira mapa desatualizado da rede.

Caderno de testes

Documento desenvolvido para auxiliar quem vai testar a ferramenta. É preparado quando a equipe de desenvolvimento finaliza a atividade e coloca em teste, e normalmente quem escreve são os próprios testadores.

Nele deve estar o fluxo da funcionalidade, e vale usar imagem, processo e detalhar cada clique. O testador dá o seu de acordo, aprovado ou reprovado, e é criada uma opção para o usuário final dar o dele também. Se outras pessoas realizarem o teste, entram no documento.

Esses "de acordo" validam que as funcionalidades foram testadas e registram quem foi responsável.

E aqui está a parte que dá peso ao documento: quem dá o aceite assume a validação. Se houver inconsistência no que foi testado, a responsabilidade é de quem testou. E depois da validação, alteração entra como nova demanda e segue o fluxo de novo desenvolvimento.

Por isso a coluna de quem testou não é burocracia. É ela que torna o aceite rastreável.

Uma mudança de formato que eu fiz nos meus modelos: esse documento deixou de ser texto e virou planilha. Caderno de teste é uma lista de casos com status, e em documento de texto não dá para filtrar por status, contar quantos passaram nem ordenar por prioridade, que é exatamente o que se faz numa homologação.

Manual do usuário

É um dos documentos mais trabalhosos para a equipe e o mais desvalorizado por quem recebe. Pense na última vez que você leu o manual do seu celular ou do seu carro.

Precisa ser bem detalhado, ensina a usar a ferramenta, e está constantemente sendo atualizado a cada funcionalidade nova. Normalmente é criado depois dos testes.

Costuma ter bastante imagem, para ajudar na visualização. E em software isso tem ganhado forma: os manuais estão virando tutorial interativo dentro da própria ferramenta, que aparece a cada funcionalidade nova. Essa prática é essencial para ganhar aderência, porque a ajuda aparece no momento da dúvida.

Mesmo sem tutorial programático, dá para criar manual que engaja. Apresentação bem feita permite algo bem mais dinâmico que documento de texto corrido.

A seção que eu passei a considerar a mais importante, e que quase nunca existe: o que costuma dar errado. É a única parte que a pessoa realmente procura, porque ela só abre o manual quando algo não funcionou como esperava. Escreva o texto exato da mensagem de erro, que é assim que ela encontra a resposta.

E organize por tarefa, não por tela. "Registrar um problema" funciona melhor que "tela de cadastro".

Documento operacional

Desenvolvido para fazer a passagem de conhecimento da equipe que construiu o software para a equipe que vai operacionalizar. Atende tanto o suporte quanto os administradores da ferramenta, aqueles responsáveis por criar usuário, fazer perfilhamento e alterar parâmetro.

A equipe de suporte já é voltada para problema e incidente. Então o documento precisa mostrar a arquitetura, onde estão os fontes, informação de servidor, banco e acesso. Credencial vai em arquivo separado ou em sistema seguro, nunca no corpo do documento.

Depois de preenchido, normalmente é necessária uma reunião com a equipe de suporte para a passagem e para tirar dúvidas.

Esse documento é aprovado pela equipe de suporte, e pode sofrer alteração conforme ela solicitar. E isso é legítimo: é ela que vai depender disso de madrugada.

Três seções que eu acrescentei porque são o que a sustentação pergunta na primeira semana.

Incidentes conhecidos e como resolver, com sintoma, causa provável e tratativa. É a seção que a sustentação mais usa e a que quase nunca vem preenchida.

Escalonamento com horário. Lista de contato sem horário de disponibilidade não serve de madrugada.

Backup com a data da última restauração testada. Backup nunca restaurado é hipótese, não é backup.

Os modelos

Refiz os seis documentos deste artigo e deixei disponíveis na Biblioteca, de graça e sem cadastro. Eles são guias para ajudar na elaboração: cada seção traz uma instrução do que escrever ali e um exemplo preenchido.

Baixar os modelos na Biblioteca

Se você está contratando fornecedor, o processo anterior a esses documentos está no artigo sobre RFI, RFP e RFQ.

E a pergunta que eu deixaria: no seu último projeto, se a pessoa que escreveu a documentação técnica saísse amanhã, o sistema continuaria evoluindo?

Perguntas

Dúvidas frequentes

Quais são os documentos de um projeto de tecnologia?

Os seis mais comuns são declaração de escopo, declaração funcional, documentação técnica, caderno de testes, manual do usuário e documento operacional. Eles cobrem o caminho do que será feito até a passagem para quem vai sustentar o sistema em produção.

Preciso de todos os documentos em todo projeto?

Não. Alguns podem não existir ou ser absorvidos por outro: a declaração funcional, por exemplo, pode estar contida na declaração de escopo quando o escopo já está bem detalhado. O importante é que a informação do projeto não se perca e esteja registrada em algum lugar.

Qual a diferença entre declaração de escopo e declaração funcional?

A declaração de escopo é o documento macro: objetivo, funcionalidades e requisitos gerais, mais o que está fora do escopo. A declaração funcional detalha esses requisitos a nível de desenvolvimento, com regras de negócio, fluxos e mensagens. Quando o escopo já está muito detalhado, a funcional vira repetição.

Por que a documentação técnica é importante?

Porque ela é o teste de continuidade do sistema. Com ela em mãos, qualquer equipe capaz deve conseguir dar prosseguimento, mesmo que ninguém do time original esteja mais lá. Ela também é a base do documento operacional, entregue a quem vai sustentar.

O que é documento operacional ou handover?

É a passagem de conhecimento da equipe que construiu o software para a equipe que vai sustentá-lo. Atende dois públicos: quem resolve incidente e quem administra a ferramenta no dia a dia. Ele é aprovado pela equipe de sustentação, não por quem escreveu.

Sobre o autor

Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.