O que é ITSM e ITIL, e qual a diferença entre os dois
Depois que o software entra em produção, o trabalho muda de natureza. Deixa de ser projeto e passa a ser serviço.
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ITSM é a disciplina de entregar tecnologia como serviço, com processo, papel e métrica definidos, partindo da necessidade de quem usa. ITIL é o framework que descreve como implementar isso na prática, hoje na versão 4.
A relação entre os dois é a fonte de quase toda a confusão sobre o assunto, e ela tem um atalho: ITSM é para ITIL o que ágil é para Scrum. Uma define o objetivo, a outra descreve o caminho.
E há uma razão para isso importar mesmo para quem trabalha só com produto digital. Depois que o software entra em produção, o trabalho muda de natureza. Deixa de ser projeto, que tem fim, e passa a ser serviço, que tem nível acordado. Quem trata a operação como continuação do projeto descobre isso do jeito difícil.
O que o ITSM propõe
A leitura mais comum, e errada, é que ITSM significa organizar a área de TI. Não é isso. A ideia é partir da necessidade de quem usa e desenhar o serviço para atendê-la, em vez de partir do que a TI já sabe fazer.
Três consequências práticas disso.
A entrega passa a ser tratada como serviço, o que vai bem além do suporte convencional. Abrange o ciclo de vida completo: como o serviço é desenhado, entregue, sustentado, medido e melhorado.
O controle é ponta a ponta. Uma solicitação que atravessa três áreas continua sendo um serviço só, com alguém respondendo pelo resultado, e não três filas independentes.
E as métricas de TI passam a se alinhar aos objetivos do negócio. Disponibilidade e tempo de resolução deixam de ser indicador interno da área e passam a ser compromisso com quem depende do serviço.
ITSM, ITIL e DevOps
Vale separar os três, porque as pessoas costumam colocá-los no mesmo nível e depois discutir qual escolher, quando eles não são alternativas entre si.
ITSM é a abordagem estratégica. Define claramente papel e responsabilidade na entrega do serviço, para cada pessoa, time e departamento.
ITIL é o corpo de práticas que descreve como executar. É o "passo a passo", ou pelo menos era, antes da versão 4.
DevOps é a filosofia de aproximar quem desenvolve de quem opera, removendo impedimento entre as duas e acelerando o caminho até produção.
Ou seja: ITSM e ITIL falam de como o serviço é gerido; DevOps fala de como a mudança chega em produção. Não competem, atuam em pontos diferentes do mesmo fluxo.
Os processos que sustentam a operação
Seis processos cobrem a maior parte do que uma operação precisa.
Gestão de incidente. Um serviço falhou ou degradou, e o objetivo é restaurar o mais rápido possível. A parte que decide a qualidade aqui é a capacidade de priorizar e categorizar por impacto no negócio, e não por ordem de chegada. É o que direciona esforço para onde ele rende mais.
Gestão de problema. Parecida com incidente, e não igual. Incidente é a interrupção acontecendo; problema é a causa por trás de incidentes que se repetem. A gestão de problema existe para eliminar essa causa e estabilizar o serviço.
Pode ser lida como um segundo nível do atendimento, ou como a função responsável por eliminar erro recorrente de alto impacto. Na prática é a diferença entre um time que apaga incêndio e um time que reduz a quantidade de incêndios. Time que só trata incidente apaga o mesmo para sempre.
Gestão de mudança. Garante que atualização em sistema ou infraestrutura seja planejada, agendada e documentada, com as pessoas certas disponíveis caso algo saia errado.
Aqui existe uma tensão real com DevOps, e é melhor nomeá-la do que fingir que não existe. Mudança bem gerida não significa mudança rara: significa mudança rastreável e reversível. O ITIL 4 reconhece isso, e a prática chama-se habilitação de mudança, não controle de mudança. A diferença de nome carrega a diferença de intenção.
Gestão de nível de serviço. Acompanha os compromissos acordados, identifica ponto fraco e dispara ação corretiva. É o processo que dá sentido ao acordo de nível de serviço.
Gestão de solicitação. Pedidos que não são incidente nem problema: redefinição de senha, concessão de acesso, exportação de dado. Volume alto, complexidade baixa, e é justamente onde automação e autoatendimento rendem mais.
Gestão de configuração. Rastreia os itens que compõem o ambiente: hardware, software, documentação, responsável. Serve para que, na hora do incidente, alguém saiba o que depende do que.
O ITIL, e o que mudou na versão 4
ITIL significa Information Technology Infrastructure Library, biblioteca de infraestrutura de tecnologia da informação.
A sigla começou a ser usada no fim dos anos 1980 pela CCTA, a agência central de computação e telecomunicações do governo britânico, e a série de livros passou a ser publicada a partir de 1989. Depois vieram a versão 2 em 2000, a versão 3 em 2007 e o ITIL 4 em 2019.
Dois pontos de atualização que aparecem errados em muito material em português. O primeiro: o ITIL hoje pertence à PeopleCert, que adquiriu a AXELOS em 2021. A AXELOS era a joint venture criada em 2013 entre o Cabinet Office britânico e a Capita, e é essa a informação que continua circulando. O segundo: o ITIL 3 foi descontinuado em 2022, com suas etapas de ciclo de vida integradas nas práticas do ITIL 4.
O ITIL 4 é onde a conversa com agilidade fica interessante, porque a mudança foi deliberada. Ele incorporou Lean, ágil e DevOps, e a principal alteração de postura foi trocar processo prescritivo por boa prática adaptável, encorajando os times a interpretar em vez de seguir. Junto veio o Sistema de Valor do Serviço, em que oportunidade e demanda entram e valor sai, com princípios orientadores, governança, cadeia de valor, práticas e melhoria contínua.
São 34 práticas, organizadas em três categorias: práticas gerais de gestão, práticas de gestão de serviço e práticas de gestão técnica.
E a mudança mais relevante talvez seja a menos técnica: o foco passou para pessoas e cultura, desencorajando processo pesado, rígido e oneroso.
Os princípios do ITIL 4 ao lado do Manifesto Ágil
Aqui está a evidência mais direta de que a convergência aconteceu de verdade. Vale ler as duas colunas lado a lado.
| Princípios orientadores do ITIL 4 | Manifesto Ágil |
|---|---|
| Concentre-se no valor | Indivíduos e interações mais que processos e ferramentas |
| Comece onde você está | Software funcionando mais que documentação abrangente |
| Progresso iterativo com feedback | Colaboração com o cliente mais que negociação de contrato |
| Colabore e promova visibilidade | Responder a mudanças mais que seguir um plano |
| Pense e trabalhe de forma holística | |
| Mantenha simples e prático | |
| Otimize e automatize |
"Progresso iterativo com feedback" e "mantenha simples e prático" são frases que caberiam sem estranhamento em qualquer material ágil.
Onde isso encosta na realidade
Existe hoje uma certa antipatia pelo ITIL e pelo ITSM, e ela tem origem legítima: a estrutura orientada a processo das versões antigas era pesada. Por causa disso, muitas áreas passaram a promover DevOps como substituto.
Na minha visão, existe sinergia possível entre as estruturas, e foi justamente a versão 4 do ITIL que abriu essa porta.
O que vale lembrar é mais simples que a escolha de framework: entrega de serviço de TI, para cliente interno ou externo, precisa de processo, papel, responsabilidade e métrica. Sem isso, o que existe é boa vontade individual, que funciona até a pessoa certa estar de férias.
O ITSM é particularmente adequado ao fim do ciclo de vida do software, que cada organização chama de um jeito: sustentação, suporte, operação. Ele traz processo claro e documentado, que pode inclusive sustentar contrato de prestação de serviço, dando ao cliente transparência sobre o que está e o que não está no escopo.
Por mais que não seja uma abordagem totalmente ágil, ela tem valor, e eu a uso nos meus projetos.
A decisão de liderança aqui não é escolher um lado. É avaliar o cenário dos serviços prestados e decidir entre ITIL e ITSM, DevOps e ágil, ou os dois em conjunto. O modo híbrido parece complicado no papel, e fica menos quando se lembra que as duas escolas colocam a satisfação de quem usa em primeiro lugar. Elas discordam sobre o caminho, não sobre o destino.
Na sua organização, a operação tem processo e métrica próprios, ou ainda é tratada como a fase final do projeto que ninguém quis planejar?
Perguntas
Dúvidas frequentes
Qual a diferença entre ITSM e ITIL?
ITSM é a disciplina: entregar TI como serviço, focada na necessidade de quem usa. ITIL é o framework que descreve como implementar isso, com práticas, papéis e métricas. A analogia mais rápida é que ITSM é para ITIL o que ágil é para Scrum.
ITIL e DevOps são incompatíveis?
Não, e a incompatibilidade percebida vem das versões antigas do ITIL, que eram prescritivas e pesadas em processo. O ITIL 4, lançado em 2019, incorporou explicitamente Lean, ágil e DevOps, e seus sete princípios orientadores se parecem bastante com o Manifesto Ágil.
Quais são os principais processos do ITSM?
Os mais usados são gestão de incidente, de problema, de mudança, de nível de serviço, de solicitação e de configuração. Incidente restaura o serviço agora; problema elimina a causa para o incidente não voltar.
Qual a diferença entre incidente e problema?
Incidente é a interrupção acontecendo, e o objetivo é restaurar o serviço o mais rápido possível. Problema é a causa por trás de incidentes recorrentes, e o objetivo é eliminá-la. Time que só trata incidente apaga o mesmo incêndio para sempre.
Quem é o dono do ITIL hoje?
A PeopleCert, que adquiriu a AXELOS em 2021. A AXELOS era uma joint venture criada em 2013 entre o Cabinet Office do governo britânico e a Capita, e essa informação aparece desatualizada em muito material em português.
ITIL 3 ainda vale?
Não como certificação corrente. O ITIL 3 foi descontinuado em 2022, e suas etapas de ciclo de vida e processos foram integrados nas categorias e práticas do ITIL 4.
Sobre o autor
Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.