O que é SLA (acordo de nível de serviço) e como montar um
Sem acordo escrito, nível de serviço é expectativa. E expectativa não medida vira reclamação.
· 9 min de leitura
Revisado em
SLA, do inglês Service Level Agreement, é o documento formal que transforma expectativa sobre um serviço em compromisso verificável. Em português também aparece como ANS, acordo de nível de serviço. Ele define o que será entregue, com que prazo, como isso será medido e o que acontece quando o nível combinado não é cumprido.
A razão de ele existir é simples de enunciar e desconfortável de aceitar: sem acordo escrito, nível de serviço é expectativa. E expectativa não medida vira reclamação, normalmente na reunião errada.
Ele não é instrumento exclusivo de tecnologia. Serve em suporte, logística, transporte e qualquer relação em que alguém presta serviço para outro alguém. Mas em TI ele tem um lugar bem definido: é o que dá contorno à operação e à sustentação.
O que um acordo precisa conter
Sete elementos, e a ausência de qualquer um deles cria um tipo específico de problema depois.
Escopo do serviço. O que está incluído e, principalmente, o que não está. A parte de fora é a que evita a discussão mais desgastante que existe em sustentação, que é decidir no meio do incidente se aquilo era responsabilidade de alguém.
Objetivos do serviço. Alvos mensuráveis: tempo de resposta, disponibilidade, taxa de resolução no primeiro contato.
Responsabilidades do fornecedor. O que ele se obriga a fazer, e em que prazo.
Responsabilidades do cliente. Igualmente importante e quase sempre esquecido. Se o cliente precisa fornecer informação, acesso ou aprovação para o serviço andar, isso é obrigação dele e o relógio deve refletir essa dependência.
Indicadores de desempenho. Como o cumprimento será medido: tempo médio de resposta, tempo médio de resolução, taxa de disponibilidade. Sem isso, o documento não é verificável, é declaração de intenção.
Penalidade e compensação. O que ocorre quando o nível não é atingido. Não precisa ser punitivo, mas precisa existir, ou o acordo não tem peso.
Revisão e renovação. Com que periodicidade o acordo é revisto. É o elemento mais negligenciado, e o que faz um acordo bom envelhecer mal.
Vale dizer que o acordo só funciona com as duas partes envolvidas na elaboração. O cliente precisa declarar necessidade e expectativa; o fornecedor precisa avaliar honestamente se consegue atender. Acordo escrito por um lado só é orçamento disfarçado de compromisso.
E ele precisa ser claro, curto e sem ambiguidade. Documento que exige interpretação será interpretado de forma diferente pelos dois lados, exatamente no dia em que isso importa.
A base: definir severidade por impacto
Antes de prometer prazo, é preciso combinar o que é grave. Essa é a parte que mais gera atrito quando fica implícita, porque cada área acha que o seu problema é o mais urgente.
O critério que funciona é impacto no negócio, e a existência ou não de contingência disponível para o cliente enquanto o serviço é restaurado.
| Severidade | Descrição |
|---|---|
| Crítica | Processos críticos de negócio estão parados. Não há contingência que possa ser feita pelo usuário final. |
| Alta | Aplicações individuais ou número limitado de funções estão interrompidas. Não há contingência que possa ser utilizada pelo usuário. |
| Média | Aplicações individuais ou número limitado de funções estão interrompidas. Há uma medida de contingência com extensão limitada. |
| Baixa | Não se caracteriza interrupção efetiva de um serviço ou função. |
Repare no que a tabela faz e no que ela evita. Ela não classifica por área, por sistema nem por quem abriu o chamado. Classifica por quanto do processo parou e por se existe saída provisória. Essas duas perguntas resolvem a maior parte das discussões de prioridade sem precisar de reunião.
O acordo em si
Com a severidade definida, o acordo fica direto. Este é um modelo simples que serve para boa parte das operações.
| Severidade | Atendimento | Resolução |
|---|---|---|
| Crítica | 2 horas corridas, em 95% dos casos | 4 horas corridas, em 95% dos casos |
| Alta | 4 horas em 90%, 6 horas em 95% | 8 horas em 90%, 12 horas em 95% |
| Média | 8 horas em 90%, 12 horas em 95% | 20 horas em 90%, 36 horas em 95% |
| Baixa ou normal | 24 horas em 85%, 40 horas em 90% | 36 horas em 85%, 48 horas em 90% |
Três detalhes desse modelo que valem atenção, porque são o que separa um acordo que funciona de um número solto no contrato.
Atendimento e resolução são compromissos diferentes. Atendimento é o prazo para alguém assumir o chamado e dar resposta; resolução é o prazo para o serviço voltar. Acordo que promete só um dos dois deixa o cliente sem saber se foi esquecido ou se está sendo tratado.
O grau de cumprimento é percentual, não absoluto. Prometer "toda crítica em 2 horas" é prometer 100%, e 100% não sobrevive ao primeiro feriado. Prometer 95% em 2 horas é honesto e verificável: mede-se o conjunto de chamados do período, não caso a caso.
Os dois patamares por severidade são uma escada. Em severidade alta, 90% dos chamados em 4 horas e 95% em 6 horas. Isso reconhece que a cauda existe, e a limita, em vez de fingir que ela não aparece.
Uma coisa que o modelo deixa a definir, e que precisa ficar explícita no acordo real: qual é a base do relógio. A severidade crítica está em horas corridas, o que faz sentido para processo parado. Para os demais níveis, é preciso dizer se são horas corridas ou horas de expediente, e qual é o expediente. Essa única linha responde por boa parte das disputas de apuração.
Por que isso importa além do contrato
O acordo é frequentemente tratado como formalidade jurídica, e é onde ele rende menos. Eu gosto de usar em serviço de sustentação e operação, e os ganhos são operacionais antes de serem contratuais.
Documentação. Especifica com clareza o que foi acordado, e é o que se consulta em vez de negociar de novo.
Papéis e responsabilidades. Orienta time e usuário sobre como agir dentro do serviço acordado.
Mapa de severidade. Define objetivamente urgência e prioridade, o que tira a decisão do campo da insistência.
Tempo de atendimento. Prazo por severidade, o que permite dimensionar equipe com base em algo, e não em sensação.
Métricas. Este é o ganho principal. Com severidade, prazo e cumprimento definidos, existe insumo para relatório, indicador e melhoria contínua. Sem acordo, não há linha de base, e sem linha de base não se sabe se o serviço melhorou ou se o mês foi mais calmo.
Plano de comunicação. Dá visibilidade a quem tem interesse sobre nível, papel e responsabilidade, antes do incidente e não durante.
Duas armadilhas
Acordo que nunca é revisto. Prazo definido na assinatura do contrato e nunca revisitado envelhece junto com o produto. O volume muda, a arquitetura muda, a criticidade dos processos muda. O elemento de revisão periódica existe justamente para isso, e é o primeiro a ser ignorado.
Acordo usado como escudo. Quando o acordo passa a servir para provar que a culpa é do outro lado, ele deixou de ser instrumento de gestão. Na minha visão, esse é o sinal mais confiável de que a relação já está ruim: enquanto o acordo é usado para dimensionar e melhorar, ele funciona; quando começa a ser citado em reunião para atribuir responsabilidade, o problema já não é de nível de serviço.
Na sua organização, o acordo de nível de serviço é revisado com alguma periodicidade, ou ele foi assinado uma vez e desde então só é consultado quando alguém quer mostrar que cumpriu?
Perguntas
Dúvidas frequentes
O que é SLA?
SLA, do inglês Service Level Agreement, ou acordo de nível de serviço em português, é o documento formal que estabelece o que o fornecedor se compromete a entregar, com que prazo, como isso será medido e o que acontece se o nível não for cumprido.
O que um SLA precisa ter?
Escopo do serviço com seus limites, objetivos mensuráveis, responsabilidades das duas partes, indicadores de desempenho, penalidade ou compensação por descumprimento, e periodicidade de revisão. Faltando os indicadores, o documento não é verificável.
Qual a diferença entre SLA, SLO e KPI?
SLA é o acordo, e tem consequência contratual. SLO é o objetivo interno de nível de serviço, geralmente mais rígido que o acordado, para dar margem antes de violar o contrato. KPI é o indicador que mede qualquer um dos dois.
Como definir níveis de severidade?
Por impacto no negócio, não por área técnica nem por quem pediu. O critério prático é quanto do processo do cliente parou e se existe contingência disponível para ele enquanto o serviço é restaurado.
SLA serve em contexto ágil?
Serve, e é comum manter SLA de sustentação com time que entrega de forma ágil. O acordo trata do serviço em operação, e não do projeto. O que muda é a revisão: prazo definido uma vez e nunca revisitado envelhece junto com o produto.
Sobre o autor
Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.