Liderança lean-agile no SAFe: as três dimensões e a mudança de mentalidade

Conhecer o framework não basta. As outras seis competências exigem mudar como se decide, e isso só quem decide pode conceder.

· 11 min de leitura
Revisado em

Mentalidade fixa e mentalidade de crescimentoA diferença que mais importa em transformação é o que a pessoa faz quando falha. MENTALIDADE FIXA
Minhas habilidades são imutáveis. Falha é veredito. Quando fico frustrado, eu desisto.
MENTALIDADE DE CRESCIMENTO
Eu gosto de tentar coisas novas. Falha é informação. Eu posso aprender o que me dedicar a aprender.
A diferença que mais importa em transformação é o que a pessoa faz quando falha.

Liderança lean-agile é a base das sete competências do SAFe, e o framework é direto sobre por quê: conhecer o assunto não é suficiente. Quem lidera precisa sustentar ativamente a transformação, respondendo pela adoção, pela melhoria contínua e pelo resultado.

São três dimensões: liderar pelo exemplo, liderar a mudança e adotar a mentalidade e os princípios.

E existe uma razão prática para essa competência ser a base e não uma das sete lado a lado. As outras seis exigem mudar como a organização decide: quem aprova escopo, quem pode interromper investimento, quem pode dizer que não tem confiança em um prazo. Isso só quem decide pode conceder.

Liderar pelo exemplo

O princípio aqui é simples e desconfortável: o comportamento de quem lidera ensina mais que qualquer treinamento. Uma organização aprende o que é aceitável observando o que a liderança faz quando a pressão aumenta, não lendo o que ela escreveu no início.

O SAFe lista cinco dimensões para isso.

Autenticidade. Ser ético, íntegro e transparente. A parte que cobra é a transparência sob má notícia: é fácil ser transparente quando o resultado é bom.

Inteligência emocional. Não só a própria, mas a capacidade de lidar com a emoção dos outros, com motivação e empatia.

Aprendizado contínuo. Encorajar conhecimento e crescimento, e demonstrar isso continuando a aprender em público.

Crescimento dos outros. Formar novos líderes, no âmbito técnico e no interpessoal. É a dimensão de retorno mais lento e maior efeito.

Descentralizar a decisão. Mover a decisão para onde está a informação, preparando o time e dando liberdade para decidir rápido no que ele domina.

A quinta é diferente das outras quatro, e vale notar. As primeiras são sobre como a pessoa se comporta. A quinta é sobre abrir mão de poder, e é por isso que ela é a mais citada e a menos praticada.

Uma nota sobre uma frase que circula muito neste contexto: "dar o exemplo não é o principal meio de influenciar os outros, é o único meio", quase sempre atribuída a Einstein. Não encontrei fonte confiável para essa atribuição, e ela aparece em compilações também como anônima. A ideia continua boa sem o nome emprestado.

Liderar a mudança

A segunda dimensão trata do trabalho de conduzir a transformação, e o SAFe lista cinco capacidades.

Visão de mudança. Comunicar o porquê de forma que motive e engaje. Mudança apresentada como decisão já tomada gera cumprimento, não engajamento.

Influenciar e motivar. A habilidade de mobilizar pessoas que não se reportam a você.

Uma coalizão poderosa. Pessoas de áreas e níveis diferentes se juntando para se empoderar mutuamente e conduzir a mudança. Transformação sustentada por uma pessoa só termina quando essa pessoa muda de cargo.

Segurança psicológica. Criar ambiente em que profissionais consigam se expor sem medo de retaliação à imagem ou à carreira.

Treinar a nova forma de trabalhar. Garantir que todos sejam treinados nos valores, princípios e práticas.

Vale parar na segurança psicológica, porque ela é pré-requisito silencioso de quase tudo no framework. Sem ela: a retrospectiva não traz o problema real, o teste com usuário não contraria a hipótese de quem patrocina, e o time não declara no PI Planning que não tem confiança em um objetivo. Os mecanismos continuam acontecendo, e param de informar.

Antes da prova Teste seu nível com 30 questões no formato da prova do SAFe Agilist

A mentalidade, e por que ela vem por último

O pensamento tradicional de gerenciamento de projetos é insuficiente para o que se pede hoje. Mas trocar isso não é decisão, é processo.

Mentalidade é o modelo mental com que se vê o mundo, e ele vem do que a pessoa conhece e treinou. Quem foi formado em cascata pensa em cascata, e isso não é defeito de caráter: é a única coisa que se conhece. Mudar exige estar aberto a experimentar, e o SAFe adota aqui o modelo de mentalidade fixa e de crescimento, formulado pela psicóloga Carol Dweck.

O modelo é de Carol Dweck, e a diferença que mais importa em transformação é a última linha: o que a pessoa faz quando falha.
Mentalidade fixaMentalidade de crescimento
Eu consigo fazer isso, ou não consigoEu gosto de tentar coisas novas
Minhas habilidades são imutáveisEu me inspiro no sucesso dos outros
Eu não gosto de mudançaFalha é oportunidade de crescimento
Quando fico frustrado, eu desistoEu posso aprender o que eu me dedicar a aprender

A terceira linha é a que decide. Numa organização de mentalidade fixa, falha é veredito sobre a competência de alguém, e o resultado previsível é que ninguém arrisca. Numa de crescimento, falha é informação, e é isso que torna possível pivotar sem que alguém precise ser culpado.

Os valores centrais, e uma correção de versão

Os valores centrais do SAFe são quatro:

  • Alinhamento
  • Transparência
  • Respeito pelas pessoas
  • Melhoria contínua

Aqui cabe uma correção importante, porque muito material em português está desatualizado neste ponto, e o meu próprio texto original estava.

Até o SAFe 5, a mentalidade lean-agile era representada pela House of Lean, um diagrama com valor no topo, quatro pilares (respeito por pessoas e cultura, fluxo, inovação, melhoria implacável) e liderança na base.

A House of Lean foi aposentada no SAFe 6.0. Não porque os princípios deixaram de valer: eles foram incorporados e ampliados ao longo do framework, em vez de morarem num diagrama próprio. A mentalidade lean-agile passou a ser representada pelos cinco princípios do pensamento lean e pelo Manifesto Ágil.

Na minha visão, a mudança é um sinal de maturidade. Princípio que precisa de diagrama próprio é princípio que não foi incorporado. Quando respeito pelas pessoas e fluxo aparecem dentro de cada prática, o desenho na parede deixa de ser necessário.

E os valores centrais também mudaram no 6.0: saíram qualidade embutida e execução do programa, e entraram alinhamento e melhoria contínua. Não por perderem importância, mas por serem tratados como prática em outros pontos. O mapa completo das mudanças tem o resto.

O Manifesto Ágil, que continua sendo a base

O Manifesto foi escrito em 2001 por um grupo de profissionais de desenvolvimento de software, e continua sendo referência do framework.

Estamos descobrindo maneiras melhores de desenvolver software, fazendo-o nós mesmos e ajudando outros a fazerem o mesmo.

Os quatro valores:

  • Indivíduos e interações mais que processos e ferramentas
  • Software em funcionamento mais que documentação abrangente
  • Colaboração com o cliente mais que negociação de contratos
  • Responder a mudanças mais que seguir um plano

E a linha que quase sempre é omitida quando alguém cita o Manifesto, e que muda o sentido de tudo: "mesmo havendo valor nos itens à direita, valorizamos mais os itens à esquerda."

Ou seja, o Manifesto não diz para abandonar processo, documentação, contrato ou plano. Diz o que prevalece quando os dois lados entram em conflito. Ler como abandono é a origem de metade das más adoções de ágil que já vi descritas.

Os doze princípios do Manifesto estão em agilemanifesto.org na versão em português, e valem a leitura direta. Três deles conversam de perto com o que este artigo trata:

"Construir projetos em torno de indivíduos motivados, dando a eles o ambiente e o suporte necessário e confiando neles para fazer o trabalho." É a formulação de 2001 do que o SAFe chama de liberar motivação intrínseca.

"As melhores arquiteturas, requisitos e designs emergem de times auto-organizáveis." É descentralização de decisão, dita antes de existir SAFe.

"Os processos ágeis promovem desenvolvimento sustentável, e os envolvidos devem ser capazes de manter um ritmo constante indefinidamente." É a razão de a iteração de inovação e planejamento existir.

O que eu observo sobre essa competência

Esta é a competência que o SAFe coloca como base e que, na prática, é a última a ser trabalhada.

O motivo é compreensível. As outras seis se traduzem em prática, ferramenta e evento, coisas que se contratam, se treinam e se auditam. Esta depende de como a liderança se comporta quando a pressão chega, e não existe consultoria que instale isso.

E há um teste que revela o estado dela numa organização, sem precisar de avaliação formal: o que acontece quando alguém diz, na frente de todos, que não tem confiança em um prazo. Se a resposta é ajustar o plano, a competência existe. Se a resposta é cobrar mais empenho, o resto do framework vai continuar acontecendo e vai parar de informar.

Na sua organização, a última vez que uma má notícia chegou até a liderança, ela chegou no começo ou quando já não havia o que fazer?

Perguntas

Dúvidas frequentes

Quais são as três dimensões da liderança lean-agile?

Liderar pelo exemplo, liderar a mudança e adotar a mentalidade e os princípios lean-agile. As três se sustentam: exemplo sem mentalidade vira encenação, e mentalidade sem exemplo não muda o comportamento de ninguém.

O que é segurança psicológica e por que ela importa aqui?

É o ambiente em que a pessoa consegue se expor, discordar e admitir erro sem risco para a imagem ou a carreira. Sem ela, retrospectiva não produz problema real, teste não contraria hipótese de quem manda, e time não declara falta de confiança em um objetivo.

Qual a diferença entre mentalidade fixa e de crescimento?

Na fixa, a habilidade é vista como imutável, mudança incomoda e falha é veredito. Na de crescimento, tentar coisa nova atrai, sucesso do outro inspira e falha é informação. O modelo é da psicóloga Carol Dweck e o SAFe o incorpora.

A House of Lean ainda existe no SAFe?

Não. Ela foi aposentada no SAFe 6.0, porque seus princípios foram incorporados e ampliados ao longo do framework. A mentalidade lean-agile passou a ser representada pelos cinco princípios do pensamento lean e pelo Manifesto Ágil.

Como descentralizar decisão sem perder controle?

Movendo a decisão para onde está a informação, com contexto e objetivo claros, e mantendo centralizadas as decisões pouco frequentes, de longo alcance e com economia de escala. O critério é econômico, não hierárquico.

Sobre o autor

Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.