Os dez princípios do SAFe, e por que eles vêm antes dos eventos

O princípio 6 mudou no SAFe 6.0, e a troca conta a história da versão: de limitar trabalho em progresso para fazer o valor fluir sem interrupção.

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Os dez princípios lean-agile do SAFeNenhum deles é sobre cerimônia. Os eventos são consequência. 1 Adotar visão econômica Quantifique o custo do atraso 2 Aplicar pensamento sistêmico Otimizar um componente não otimiza o sistema 3 Presumir variabilidade, preservar opções Manter opção de desenho até ter informação real 4 Construir incrementalmente Ciclos rápidos e integrados de aprendizado 5 Marcos por avaliação objetiva Sistema funcionando, não documento aprovado 6 Fazer o valor fluir sem interrupções Visualizar e limitar o trabalho em progresso 7 Aplicar cadência e sincronizar Times diferentes se encontram no mesmo ponto do tempo 8 Liberar a motivação intrínseca Autonomia, domínio e propósito 9 Descentralizar a decisão Decisão frequente e local vai para quem faz o trabalho 10 Organizar em torno do valor Equipes que levam algo do início até a entrega
Nenhum deles é sobre cerimônia. Os eventos são consequência.

Os dez princípios lean-agile são o porquê do SAFe. Eles antecedem qualquer evento, papel ou artefato do framework, e a razão de começar por eles é prática: quem os entende consegue cortar o cerimonial que não serve ao próprio contexto.

Quem não os entende implanta tudo, e descobre depois que o cerimonial nunca foi o mecanismo.

1. Adotar uma visão econômica

Entregar antes e com frequência amplia valor, porque cada entrega gera feedback e oportunidade de corrigir direção. Sequenciar trabalho em lotes pequenos maximiza esse benefício.

Mas o princípio pede mais que isso: pede entendimento econômico contínuo na construção do sistema. Fazer escolhas econômicas ao longo do caminho, e não uma vez no início.

E ele carrega a frase que atravessa todo o framework: se você for quantificar uma coisa só, quantifique o custo do atraso. É esse número que permite sequenciar trabalho por economia em vez de por quem pediu com mais insistência, e é a base do WSJF.

Um detalhe que o princípio inclui e quase ninguém aplica: considerar o dinheiro já gasto na decisão. Ou seja, aceitar que investimento passado não justifica continuar. É o custo irrecuperável, e reconhecê-lo é uma das coisas mais difíceis de fazer numa organização.

2. Aplicar o pensamento sistêmico

Um sistema deve ser gerenciado. Ele não se gerencia sozinho.

W. Edwards Deming

A solução desenvolvida é um sistema. E a organização que a desenvolve também é um sistema. Os dois precisam ser tratados como tal.

A consequência mais importante: otimizar um componente não otimiza o sistema. Um time que dobra a própria velocidade em um fluxo que trava na homologação não melhorou a entrega, só aumentou a fila em outro lugar.

E quando se olha o fluxo inteiro procurando o que impede agilidade, o que aparece com mais frequência são atrasos, não falta de capacidade. Por isso reduzir atraso é o caminho mais rápido para reduzir tempo de entrega, e costuma ser mais barato que contratar.

Tudo o que estamos fazendo é olhar a linha do tempo desde o momento em que o cliente faz um pedido até quando recebemos o dinheiro. E estamos reduzindo essa linha do tempo removendo o desperdício que não agrega valor.

Taiichi Ohno

A frase do criador do Sistema Toyota de Produção é a definição mais econômica de pensamento sistêmico que existe.

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3. Presumir variabilidade, preservar opções

É muito difícil saber tudo no início. Então requisito e desenho precisam permanecer flexíveis por algum tempo.

O mecanismo concreto: identificar várias opções de desenho e definir pontos de aprendizado onde o funil vai sendo estreitado com informação real.

Compare com a alternativa. Planejar um ponto único no começo e alterá-lo no fim custa mais, porque a alteração acontece quando tudo já foi construído em cima da escolha errada. Preservar opção é mais barato que corrigir decisão.

4. Construir incrementalmente, com ciclos rápidos e integrados de aprendizado

Ciclos curtos permitem feedback rápido do cliente e mitigação de risco, e apontam quando o produto está no caminho certo ou quando é hora de pivotar.

O mecanismo por trás é o que importa: feedback rápido acelera aprendizado porque diminui o tempo entre ação e efeito. Quanto mais longe a consequência está da decisão, menos se aprende dela.

A palavra "integrados" no nome não é enfeite. Ciclos que produzem incremento sem integrar não geram aprendizado real, porque o problema aparece na integração.

5. Basear marcos na avaliação objetiva de sistemas funcionando

Este princípio ataca uma prática específica, e vale entender o ataque.

Marco de fase é o marco tradicional: requisitos aprovados, desenho aprovado, desenvolvimento concluído. Três problemas:

  • Força decisão com muita antecedência
  • Presume que a proposta inicial é à prova de falha e não vai mudar
  • Retarda feedback, porque o progresso é medido contra documento, não contra sistema

Marco de objetivo mede progresso contra objetivo do produto, com sistema funcionando como evidência. Isso permite ajuste contínuo e econômico, e dá transparência real: ao fim do marco, ou o objetivo foi atendido e validado, ou não foi.

A diferença prática é brutal. Marco de fase permite um projeto estar "80% concluído" por seis meses. Marco de objetivo não.

6. Fazer o valor fluir sem interrupções

Este princípio mudou de nome e de escopo no SAFe 6.0, e a mudança conta a história da versão.

Antes era "visualizar e limitar o trabalho em progresso, reduzir o tamanho dos lotes e gerenciar o tamanho das filas". Passou a ser "fazer o valor fluir sem interrupções", agora ancorado nos cinco princípios do pensamento lean, com oito propriedades de fluxo e oito aceleradores de fluxo.

A versão 6.0 ficou conhecida como the flow release por causa disso.

As práticas antigas não saíram: elas viraram aceleradores. E continuam sendo as mais concretas do princípio.

Visualizar e limitar o trabalho em progresso. O WIP é todo o trabalho iniciado e não aceito, desde a entrada no backlog até o aceite. Visualizar serve para impedir fila grande em uma etapa só. Se a fila está no teste, o problema é ali, e nenhuma velocidade a mais no desenvolvimento resolve.

Reduzir o tamanho do lote. Pacote menor é mais fácil de entender e entrega valor mais rápido. Os ganhos que o SAFe lista: mais previsibilidade, feedback mais rápido, menos retrabalho e custo menor. O lote ideal é o de menor custo total, considerando o esforço de transição.

Gerenciar o tamanho das filas. Fila grande aumenta lead time, risco e variabilidade, e reduz qualidade. É o mesmo mecanismo do Kanban, aplicado ao fluxo inteiro.

Vale reter por que a mudança de nome importa. "Limitar WIP" descreve uma prática. "Fazer o valor fluir" descreve o objetivo. E prática sem objetivo tende a virar métrica: times que limitam WIP porque o framework manda, sem entender que o alvo é fluxo, acabam otimizando o número em vez do resultado.

7. Aplicar cadência e sincronizar com planejamento entre domínios

Cadência cria previsibilidade e dá ritmo. Sincronização faz times diferentes se encontrarem no mesmo ponto do tempo.

E o princípio insiste nas duas: cadência sem sincronização não basta. Vários times com ritmo próprio, cada um entregando de duas em duas semanas em datas diferentes, não conseguem planejar dependência entre si.

É o que sustenta o PI Planning e toda a cadência do trem.

8. Liberar a motivação intrínseca dos trabalhadores do conhecimento

Trabalhadores do conhecimento são aqueles que sabem mais sobre o trabalho que realizam do que os próprios chefes.

Peter Drucker

Se a definição é essa, a consequência é direta: essas pessoas são as mais qualificadas para decidir como fazer o trabalho. Isso não é gentileza organizacional, é aproveitamento de informação.

O SAFe cita três elementos da motivação intrínseca, e vale creditar a origem, porque o modelo é de Daniel Pink, no livro Drive:

Autonomia, o desejo de ser autodirigido: controlar as próprias tarefas, como fazê-las e com quem trabalhar.

Domínio, o desejo de ficar cada vez melhor no que se faz, técnica e relacionalmente.

Propósito, o desejo de fazer algo que tenha sentido e importe.

Repare no que os três têm em comum: nenhum se compra com bônus. É por isso que o princípio fala de "liberar" e não de "criar" motivação. A motivação já está lá; o que a organização faz, na maior parte dos casos, é bloqueá-la.

9. Descentralizar a tomada de decisão

Decisão tomada longe de onde o trabalho acontece é decisão tomada com menos informação e mais demora. Quem está perto do problema costuma ser mais apto a decidir sobre arquitetura, ferramenta e abordagem.

Para isso funcionar, duas condições: as pessoas precisam ter contexto e informação, e os objetivos precisam ser claros. Descentralizar sem contexto produz decisão rápida e desalinhada.

E o princípio traz uma ressalva que costuma ser omitida por quem cita apenas a primeira metade: existem decisões que não devem ser delegadas. O critério do SAFe é útil e vale decorar.

O critério não é hierárquico, é econômico: descentralizar o que é frequente e local, centralizar o que é raro e de longo alcance.
Centralizar quando a decisão éDescentralizar quando a decisão é
Pouco frequenteFrequente
De longo alcance, difícil de reverterUrgente, com custo de espera alto
Envolve economia de escalaExige conhecimento local

10. Organizar em torno do valor

O último princípio é o que sustenta a proposta do framework de ser um segundo sistema operacional.

Empresas se organizam em silos funcionais: negócio, software, hardware, teste. Isso produz atraso, perda de cooperação e comunicação difícil, porque toda entrega atravessa fronteiras de área.

Organizar por fluxo de valor significa montar equipes capazes de levar algo do reconhecimento da oportunidade até a liberação. Identificar os fluxos permite formar um ou mais Agile Release Trains, e o arranjo pode ser reorganizado rápido conforme o mercado muda, sem mexer na hierarquia existente.

O que eu levaria dos dez

Se eu tivesse que escolher três para uma organização que está começando, seriam estes.

O 1, porque custo do atraso é o único número que transforma discussão de prioridade em conta verificável.

O 5, porque marco de objetivo em lugar de marco de fase é a mudança de menor custo e maior efeito na conversa com quem financia. Ela troca "estamos no prazo" por "isto funciona".

O 9, porque descentralizar decisão é onde a agilidade acontece ou não acontece, e é o único dos dez que depende inteiramente de quem tem poder abrir mão de usá-lo.

E uma observação sobre os dez em conjunto: nenhum deles é sobre cerimônia. Não há princípio dizendo para fazer reunião diária ou planejar de duas em duas semanas. Os eventos são consequência, e é por isso que adotar evento sem entender princípio produz custo sem retorno.

Na sua organização, quando alguém propõe interromper uma iniciativa por causa do que já se gastou nela, o argumento do investimento passado costuma vencer?

Perguntas

Dúvidas frequentes

Quais são os dez princípios do SAFe?

Adotar visão econômica, aplicar pensamento sistêmico, presumir variabilidade e preservar opções, construir incrementalmente com ciclos rápidos de aprendizado, basear marcos em avaliação objetiva de sistemas funcionando, fazer o valor fluir sem interrupções, aplicar cadência e sincronizar, liberar a motivação intrínseca, descentralizar a decisão e organizar em torno do valor.

O princípio 6 do SAFe mudou?

Mudou no SAFe 6.0. Era visualizar e limitar o trabalho em progresso, reduzir lotes e gerenciar filas. Passou a ser fazer o valor fluir sem interrupções, com oito propriedades de fluxo e oito aceleradores. As práticas antigas continuam, agora como aceleradores.

O que é custo do atraso no SAFe?

É quanto se perde por não entregar algo agora. O princípio 1 diz que, se você for quantificar uma coisa só, quantifique o custo do atraso, porque é ele que permite sequenciar trabalho por economia em vez de por insistência.

Qual a diferença entre marco de fase e marco de objetivo?

Marco de fase força decisão com muita antecedência e presume que a proposta inicial não vai mudar. Marco de objetivo mede progresso contra um sistema funcionando, o que permite ajuste contínuo e dá evidência real de avanço.

Que decisões não devem ser descentralizadas?

As que são pouco frequentes, de longo alcance e envolvem economia de escala, tipicamente estratégicas ou de grande custo. O critério do SAFe é: decisão frequente, urgente e que exige conhecimento local vai para quem faz o trabalho.

Sobre o autor

Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.